“O Filho Perdido”: Irene Vucovix transforma dor extrema em um relato devastador sobre maternidade, culpa e tristeza

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‘O Filho Perdido’, estreia literária da jornalista Irene Vucovix, é um testemunho real sobre o amor de uma mãe diante da lenta destruição do próprio filho — e da impossibilidade de salvá-lo.

Publicado pela Geração Editorial, o livro mescla memória, confissão e reconstrução emocional para narrar uma tragédia marcada por dependência química, violência, transtorno de personalidade antissocial e rupturas familiares profundas. Mas, também fala sobre solidão.

Narrado em primeira pessoa, como um diálogo tardio com o filho que já não pode responder, o livro acompanha a trajetória de uma mãe que vê, impotente, o único filho mergulhar em uma espiral de autodestruição. Prisões, manipulações, furtos, internações psiquiátricas e crises sucessivas atravessam a narrativa até culminar na morte precoce dele, em 2017, aos 39 anos.

Ao longo de 240 páginas, Irene conduz o leitor por um território emocional explorado com tamanha franqueza: os limites do amor materno quando o afeto já não basta para controlar um outro ser.

Uma história real sem romantização

Sem recorrer a sentimentalismos fáceis, “O Filho Perdido” desmonta a visão idealizada da maternidade. Irene apresenta uma mãe que ama profundamente, mas que, em determinado momento, precisa se afastar do filho para sobreviver — e talvez tentar salvá-lo.

“Eu fiquei afastada do meu filho por 19 anos como uma forma de forçá-lo a assumir a vida dele”, revela a autora. Segundo ela, a decisão foi orientada por psiquiatras, diante de um quadro agravado pelo uso intenso de drogas e por traços de psicopatia diagnosticados ainda na adolescência. “Até então eu corria apagando incêndios. Internando, pagando psiquiatra e psicólogo, tirando da cadeia, pagando advogado. Uma loucura”, recorda a autora, que nos anos 80 foi repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo.

A imagem usada pelos médicos permanece viva em sua memória: ela precisava se tornar “uma parede”, alguém que dissesse “não” e não cedesse mais às manipulações do filho.

O relato ganha ainda mais força justamente por fugir da lógica da culpa simplificada. Irene não tenta justificar o filho, nem absolver a si mesma. O livro expõe as ambiguidades, contradições e dores silenciosas que cercam famílias atravessadas pela dependência química e por transtornos mentais graves.

O nascimento do livro: literatura como catarse

Curiosamente, a origem do livro não nasceu de um projeto literário estruturado, mas de um impulso emocional inesperado. Na época em que frequentava oficinas de escrita, Irene leu o conto “Onze Filhos”, de Franz Kafka. “Esse conto me deu um clique: acho que eu vou escrever isso para o meu filho”, conta.

O que começou com apenas 30 linhas acabou se transformando em um livro. Sem conseguir encontrar um ponto de partida, Irene recebeu de uma amiga uma sugestão decisiva: gravar áudios contando a própria história. Foi assim que surgiu a primeira frase da narrativa. “Comecei a gravar como se estivesse falando com ele: ‘você nasceu pequeno, tamanho de menina’. Quando terminei, percebi que tinha encontrado o começo do livro.”

A escrita, no entanto, aconteceu de forma fragmentada e dolorosa. Iniciado em 2019, dois anos após a morte do filho, o manuscrito só foi concluído em 2024. “Mexer nessas coisas todas foi muito duro, mas também foi uma libertação, uma catarse”, afirma.

A infância amorosa e o contraste devastador

Um dos aspectos mais impactantes da obra é o contraste entre a infância afetiva do filho e o homem que ele se tornou mais tarde. Irene relembra uma criança cercada por avós, tios, primos e carinho. Ao revisitar caixas de lembranças, encontrou desenhos, ubmarinos de papel, bilhetes escritos à mão com frases como “mãe, te amo”.

Ao mesmo tempo, reconhece sinais que talvez tenham sido ignorados pela família no início. “Notei algo estranho desde criança. Dinheiro sumia da carteira do meu pai, pequenas infrações que a gente não queria ver.”

A situação se agravou drasticamente na adolescência. “Quando ele tinha 13 anos, as coisas começaram a ficar bem complicadas, iniciou o uso de drogas pra valer”, lembra. “Ele ficou um homem grande, bonito, sedutor e altamente manipulador.” O primeiro diagnóstico de transtorno de personalidade antissocial veio quando ele tinha apenas 15 anos.

Um livro que acolhe outras mães

Desde o lançamento, em novembro de 2025, Irene vem recebendo mensagens de leitores que se identificam com a história — especialmente mães. “Agora, com o livro, muitas mães me abraçam. Tem gente que chega e fala: ‘vamos te dar um abraço’. E é a coisa mais gostosa do mundo, porque você se sente acolhida.”

Segundo ela, o maior sofrimento dessas famílias é justamente o isolamento. “Quando você enfrenta esse tipo de problema, você se sente muito só. As decisões são solitárias.”

É nesse ponto que “O Filho Perdido” ultrapassa a dimensão autobiográfica e se transforma também em documento social. A obra toca em temas frequentemente escondidos dentro das casas: dependência química, violência doméstica, culpa, vergonha, adoecimento mental e esgotamento emocional.

Mais do que reconstruir a memória do filho, Irene tenta devolver humanidade a alguém que terminou reduzido aos próprios erros. “Meu filho foi muito mais do que o fim que teve. Ele foi amado, teve uma história. E eu precisava contar isso.”

Jornalismo, literatura e maturidade

Paulistana, Irene Vucovix construiu uma longa carreira no jornalismo. Foi repórter da Editora Abril e, nos anos 1980, atuou como repórter especial do O Estado de S. Paulo. Mais tarde, dirigiu durante mais de duas décadas uma agência de comunicação. A aproximação com a literatura veio após a aposentadoria, quando passou a frequentar oficinas de escrita em busca de uma linguagem diferente da objetividade jornalística.

Em 2023, seu conto “Retalhos” ficou entre os três selecionados do Prêmio Arte e Literatura USP60+. Já em 2024, “Senhora dos Solitários” integrou a antologia “Quem, onde e adeus”, da editora Sinete. Mas é em “O Filho Perdido” que Irene encontra sua voz mais contundente — uma escrita seca, íntima e corajosa, capaz de transformar devastação em narrativa.

Serviço

Livro: O Filho Perdido
Autora: Irene Vucovix
Gênero: Memórias / Não ficção
Editora: Geração Editorial
Preço: a partir de R$ 53,49
Onde encontrar: plataformas digitais e livrarias como Amazon Brasil, Livraria da Vila, Livraria da Travessa e Martins Fontes Paulista.


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