Uma carreira que atravessa países e inspira novos caminhos na enfermagem


                                                                   
                                                                                  Isabella Medeiros / divulgação



Aos 38 anos, Isabella Medeiros é prova de que a enfermagem pode atravessar fronteiras e abrir portas muito além do que muitos imaginam no Brasil. Formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e com trajetória em hospitais de referência, ela atua hoje na Alemanha, em um dos campos mais exigentes da assistência hospitalar, a oncologia. Sua caminhada, marcada por escolhas corajosas e preparação constante, não é apenas uma história individual de sucesso, mas um convite para repensar os limites da profissão e enxergar a carreira como um passaporte para o mundo.

 

Desde a graduação, Isabella sabia que queria se destacar. Ainda na faculdade de enfermagem da UFF, encontrou na oncologia um campo de interesse e decidiu ir além da sala de aula. Mesmo sendo uma bolsa tradicionalmente oferecida a alunos de Medicina, bateu à porta de uma professora e conseguiu integrar um programa de extensão voltado a estudos e tratamentos sobre tabagismo. Entre 2010 e 2012, participou de um projeto que envolvia pacientes psiquiátricos e usuários de drogas, com diferentes frentes de atuação.
 

O envolvimento acadêmico rendeu frutos cedo. Isabella apresentou trabalhos em congressos internacionais, passou por países como Estados Unidos e Uruguai e, em 2012, conquistou um prêmio internacional na área de tabagismo com um estudo de caso marcante: o acompanhamento de uma paciente que desenvolveu dependência ao mascar o conteúdo do cigarro como forma de aliviar a dor de um dente cariado, evitando procedimentos odontológicos por medo de anestesia. A pesquisa revelou o efeito anestésico da substância e os mecanismos que levaram à dependência, consolidando não apenas o interesse pela pesquisa, mas também a convicção de que a enfermagem poderia ocupar espaços de protagonismo.
 

Protagonismo desde a formação
 

Ao migrar para a prática assistencial, passou por hospitais e clínicas de saúde até se aproximar definitivamente da oncologia. Ainda na universidade, identificou uma lacuna: a liga acadêmica de oncologia não incluía a enfermagem. A resposta foi criar esse espaço. Isabella fundou a frente de enfermagem dentro da liga, tornou-se diretora no primeiro ano e, depois, presidente por dois anos, em uma iniciativa pioneira.
 

Sua formação também incluiu experiências fora do eixo tradicional. Trabalhou como monitora de gerenciamento em enfermagem com alunos no campus de Niterói da UFF, e também participou de um outro projeto da universidade em Oriximiná, no interior da Amazônia, região com comunidades quilombolas, populações ribeirinhas e indígenas. Durante um mês e meio, atuou em um hospital financiado pela instituição e em uma maternidade-escola, vivência que ampliou seu olhar sobre saúde pública, cultura e desigualdade.
 

Após a graduação, ingressou na pós-graduação em oncologia no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e, paralelamente, começou a trabalhar na UPA da Tijuca, no Rio de Janeiro. O aprendizado intenso da urgência e emergência moldou habilidades emocionais e técnicas que seriam decisivas no futuro. Em 2016, já com a especialização concluída, buscou uma vaga em oncologia hospitalar e foi contratada pelo Hospital Samaritano, que naquele ano se tornou referência para delegações estrangeiras durante os Jogos Olímpicos do Rio. Fluente em inglês e espanhol, integrou a equipe de ortopedia e, após o evento, teve o contrato estendido.
 

Em 2017, foi aprovada em um processo seletivo para atuar como enfermeira oncológica em Niterói. Mas, naquele momento, uma nova possibilidade começou a ganhar força. Um primo, formado em enfermagem na mesma época, havia se mudado para a Alemanha após participar de um processo seletivo internacional. A ideia de tentar o mesmo caminho passou a fazer sentido. Isabella e o marido Marcel Ricardo Damasia Vieira, também enfermeiro, decidiram embarcar juntos nessa jornada.
 

A enfermagem brasileira no radar do mundo
 

Em 2019, ela pediu demissão no Brasil. Em apenas três meses e meio, o casal se dedicou ao aprendizado do alemão e participou de uma seleção para um hospital no país europeu. A aprovação veio no início de 2020. Logo na chegada, Isabella começou a trabalhar na internação oncológica e iniciou o processo de revalidação do diploma. Hoje, vivendo em Münster, uma tradicional cidade universitária, atua na semi-intensiva do setor pediátrico de transplante de medula óssea. O marido seguiu outro caminho dentro do sistema hospitalar, com atuação na cardiologia.
 

A trajetória de Isabella dialoga diretamente com uma realidade global: a escassez de profissionais de enfermagem em diversos países, especialmente na Europa. A Alemanha, em particular, enfrenta uma demanda crescente por enfermeiros qualificados e vê no Brasil um celeiro de profissionais com formação universitária sólida, um diferencial em um país onde a maior parte da equipe de enfermagem tem formação técnica.
 

Além do reconhecimento profissional, a rotina de trabalho também difere significativamente da brasileira. As escalas são organizadas com meses de antecedência, há maior previsibilidade de horários e possibilidades de contratos flexíveis, inclusive para quem precisa conciliar trabalho e maternidade. Benefícios sociais amplos, licença parental estendida, segurança trabalhista e acesso integral ao sistema de saúde fazem parte do pacote que atrai profissionais estrangeiros.
 

“O processo foi muito organizado e humano”, resume Isabella. “Existe suporte desde o curso de idioma até a adaptação no hospital. Claro que há relatos de experiências ruins, mas, no nosso caso, tivemos apoio em todas as etapas.”
 

Sempre movido pelo desejo de crescer, aprender e melhorar a qualidade de vida, o casal agora avalia novos horizontes. Estão em processo de submissão de visto para os Estados Unidos, onde a enfermagem figura entre as profissões mais valorizadas do sistema de saúde, com salários significativamente mais altos e um estilo de vida que, segundo Isabella, se aproxima mais do brasileiro. Espanha, Itália e Austrália também aparecem como possibilidades no radar.
 

A trajetória da enfermeira evidencia um ponto central: muitos profissionais de saúde no Brasil ainda desconhecem o valor que sua formação tem fora do país. Em um cenário global de envelhecimento populacional, pressão sobre os sistemas de saúde e déficit de mão de obra especializada, a enfermagem brasileira desponta como uma das mais preparadas para ocupar espaços internacionais.
 

“A gente aprende muito no Brasil. Trabalhar com poucos recursos te dá jogo de cintura, senso crítico e humanidade”, diz Isabella. “Quando você junta isso com uma formação acadêmica forte, o mundo se abre.”


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