Advogado há 33 anos, com dois títulos de Doutor Honoris Causa e mais de 30 obras publicadas, o novo imortal da Cadeira nº XXXIX alertou para o "empobrecimento sistemático do vernáculo" e assumiu o compromisso de zelar pela língua portuguesa
O jurista, advogado e historiador Flávio Noronha tomou posse na Academia de Letras de Brasília (Acleb) em solenidade realizada no dia 29 de outubro, em um dos salões do Hotel Bonaparte, na Asa Sul. Noronha assume a Cadeira nº XXXIX, cujo patrono é o escritor e folclorista Cornélio Pires, ao lado dos também empossados Lucineide Cruz (Cadeira XXXII), Roberto Minadeo (Cadeira XXVII) e Tânia Montoro (Cadeira XI). A cerimônia foi presidida pelo escritor e advogado Raul Canal, presidente da Acleb, e reuniu acadêmicos, familiares e convidados.
Em seu discurso de posse, Noronha dedicou o centro de sua fala à defesa da língua portuguesa, classificando o idioma como "a identidade do povo brasileiro" — não apenas um instrumento de comunicação ou um sistema de regras gramaticais. Citando Olavo Bilac, declarou assumir "a condição de arauto e guardião oficial da última flor do lácio, inculta e bela".
O novo acadêmico apontou o que considera um "grave e sorrateiro mal" contra o vernáculo: a expansão "desenfreada e acrítica" das redes sociais. Segundo ele, "sob o pretexto da velocidade, a palavra é reduzida a silvos e fragmentos. A sintaxe é desmantelada e substituída por algoritmos de engajamento rápido. Vivemos sob o império dos clichês".
Para Noronha, o fenômeno tem consequência direta sobre o pensamento:
"Quem não domina as nuances da palavra perde a capacidade de formular ideias complexas. Quem se expressa apenas por jargões de internet torna-se presa fácil da superficialidade".
O jurista, contudo, afastou a leitura de que sua crítica represente resistência ao progresso tecnológico: "Confrontar esse esvaziamento não significa engessar o idioma ou repudiar o progresso tecnológico. Trata-se de impedir a renúncia à profundidade; a capitulação da inteligência pela pressa do clique".
Boa parte do pronunciamento foi dedicada ao patrono da cadeira. Noronha lembrou a trajetória de Cornélio Pires como poeta, escritor, compositor, contador de casos, conferencista, cineasta, produtor de discos e roteirista, e sua contribuição para valorizar o falar caipira e a tradição oral do interior do Brasil.
"Falar sobre ele é lembrar que a nossa língua se alimenta da vida, da terra e da verdade daqueles que a falam", afirmou. Considerado o pai da música sertaneja e chamado de "Bandeirante do Folclore Paulista", Cornélio Pires publicou 24 livros e fundou o "Teatro Ambulante Gratuito Cornélio Pires", ao qual se dedicou até 1958, ano de sua morte, aos 74 anos.
Outro eixo do discurso foi a reflexão sobre a vaidade no meio intelectual. Recorrendo ao filósofo luso-brasileiro Matias Aires — "que são os homens, mais do que aparências de teatro?" —, Noronha diferenciou vaidade de orgulho: "O orgulho relaciona-se com a opinião que tenho sobre mim, e a vaidade, com o que desejo que os outros pensem de mim". Defendeu que a busca pela excelência não se confunde com vaidade: "O querer ser o melhor, o anseio por produzir o extraordinário, não é vaidade: é compromisso com o conteúdo; é a utilização máxima do potencial humano".
Nos agradecimentos, Noronha homenageou a esposa Marina e os filhos André e Alice, os pais in memoriam e a madrinha e confreira, a acadêmica Ena Galvão, titular da Cadeira XVIII, "pela ousadia na indicação" de seu nome. Encerrou prestando homenagem ao presidente Raul Canal pela "incansável dedicação de esforços ao sustento e ao brilho desta Casa de Cultura", e concluiu: "Prometo fidelidade aos ideais deste Sodalício e zelo pela memória dos que me antecederam, honrando, com meu trabalho e minha produção, a cadeira que agora me abriga".
Quem é Flávio Noronha — Flávio Augusto Nogueira Noronha é advogado inscrito na OAB-DF desde 1993, com 33 anos de advocacia e nenhum processo ético-disciplinar. Bacharel em Direito pelo UniCEUB (1992), é pós-graduado em Direito Econômico e das Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV-DF, 1999) e acumula dois títulos de Doutor Honoris Causa: em Direito, pela UNISCECAP, e em História Militar, pela World Christian University (Flórida, EUA). Como historiador e escritor, é autor de mais de 30 obras, entre elas Impeachment — Arma de Moralização (1992), Parlamentarismo (1993), o Dicionário de "Mineirês" (2018) e a coletânea de biografias em poesia de personalidades públicas. É coautor e organizador da Coletânea de História Militar Brasileira (2022) e coautor da História do Comando Militar do Planalto (2022). Mantém a série "Dicas do Noronha", com publicações diárias sobre Língua Portuguesa e Direito, e atua como colunista semanal do jornal eletrônico SOS Brasília e articulista do EBlog, no blog do Exército Brasileiro. É acadêmico da ABRASCI (Cadeira Carlos Drummond de Andrade, desde 2018), da Academia de História Militar Terrestre do Brasil — AHIMTB/DF (desde 2019) e, agora, da Acleb (Cadeira Cornélio Pires, 2026).




