Culinárias regionais conquistam espaço em restaurantes fora de seus estados de origem

 

Receitas tradicionais, ingredientes típicos e referências culturais aproximam consumidores de diferentes partes do Brasil 

 

Restaurantes especializados em culinárias regionais levam receitas tradicionais e ingredientes típicos a consumidores de outros estados | Foto: Wolf Wagner / Agência de Notícias da Abrasel

 

A gastronomia brasileira reúne tradições que ultrapassam fronteiras estaduais e encontram novos públicos em restaurantes especializados em culinárias regionais. Para alguns clientes, esses estabelecimentos representam a oportunidade de reencontrar sabores de casa. Para outros, são uma forma de conhecer ingredientes, receitas e costumes de lugares que ainda não visitaram. 

Além dos pratos, a experiência pode envolver música, decoração, histórias dos empreendedores e informações sobre a origem dos ingredientes. São elementos que ajudam a apresentar diferentes culturas alimentares e a construir a identidade dos negócios. 

Em São Paulo/SP, o Namazônia leva referências da culinária da região Norte à mesa dos consumidores. Já em Belo Horizonte/MG, o Canto de Mainha apresenta pratos e elementos culturais nordestinos ao público mineiro. Embora tenham propostas próprias, os dois restaurantes têm na gastronomia regional um dos principais pilares de sua atuação. 

 

Memórias e tradições dão origem aos negócios 

Natural de Belém, no Pará, Pedro Amaral vive em São Paulo há 12 anos. Antes de empreender no setor de alimentação, trabalhava em escritórios, mas sentia falta da comida paraense e buscava um projeto que o aproximasse da gastronomia e da cultura de sua região. 

A oportunidade surgiu em 2018, quando um antigo sócio o convidou para abrir um estabelecimento dedicado aos sabores do Norte do país. “Para quem é nortista, a nossa comida é muito significativa, tem uma importância muito grande na nossa vida", conta Pedro. 

A ligação pessoal com a região passou a orientar a proposta do Namazônia, que reúne referências de diferentes estados e municípios do Norte, com destaque para a culinária paraense. Pato no tucupi, maniçoba e vatapá paraense estão entre os pratos tradicionais oferecidos pela casa. 

A procedência dos ingredientes também faz parte da identidade do restaurante. O estabelecimento trabalha com farinhas de Bragança, no Pará, de Tefé, no Amazonas, e de Brasileia, no Acre. Frutas amazônicas são utilizadas em sucos e sobremesas, enquanto licores regionais ampliam as possibilidades de experimentação. 

A preservação das receitas é outra preocupação de Amaral. Mesmo quando os clientes sugerem adaptações, a casa procura manter os preparos tradicionais, sobretudo naqueles considerados representativos da culinária paraense. 

“A proposta da casa é trazer essas receitas o mais fiéis possível à origem. Então, a gente procura ao máximo utilizar os insumos da região Norte e não mudar, para não descaracterizar a proposta nem fugir do que somos desde o início", expõe. 

Em Belo Horizonte, a história do Canto de Mainha também está ligada às relações pessoais dos fundadores com a gastronomia regional. O restaurante foi inaugurado em 2018 por Fernanda Medeiros e seu marido, Diogo Alcântara, pernambucano. A escolha pela culinária nordestina partiu tanto da relação dele com a região quanto do desejo do casal de criar um negócio com identidade própria. 

"Por que escolhemos a culinária nordestina? Por conta do meu marido. Ele é 'ruim' demais para comer. Ele odeia alho, cebola, tudo que o mineiro ama. Eu passava um impasse danado em casa: 'O que nosso filho vai comer?', dizia ele. Aí eu falei: 'Amor, vou montar um restaurante de cozinha nordestina, está resolvido'", conta Fernanda. 

A elaboração do cardápio começou com pratos que o casal conhecia e gostaria de oferecer. Profissionais de cozinha também participaram do desenvolvimento das receitas e da organização dos preparos. O resultado combina referências tradicionais com escolhas próprias do estabelecimento, incluindo a seleção de ingredientes e adaptações pontuais em algumas preparações. 

 

Novos públicos descobrem sabores de outras regiões 

A clientela do Namazônia mudou desde a inauguração. Segundo Amaral, no início, cerca de 80% dos clientes eram nortistas ou pessoas que já haviam visitado a região e procuravam esses sabores em São Paulo. 

Com o passar do tempo, o restaurante também conquistou moradores da capital paulista, consumidores de cidades próximas e estrangeiros interessados na cozinha amazônica. Atualmente, a estimativa do proprietário é que o público esteja dividido igualmente entre pessoas do Norte e clientes de outras origens. 

A experiência oferecida pela casa vai além da comida. Obras de artistas da região, músicas de artistas nortistas e explicações sobre os pratos e a procedência dos ingredientes ajudam a contextualizar o que chega à mesa. 

“O tempo foi aguçando cada vez mais a curiosidade das pessoas que não são nortistas. Hoje recebemos, por exemplo, muitos estrangeiros que estão passando por São Paulo, e é muito curioso como eles nos acham. Encontrar uma comida amazônica em São Paulo, né? São Paulo tem gastronomia do mundo inteiro, por que não experimentar uma gastronomia amazônica?", explica Pedro. 

No Canto de Mainha, a proposta de aproximação com a cultura nordestina também ultrapassa o cardápio. Bandeiras dos estados da região, camisas de times de futebol, objetos trazidos de viagens e referências artísticas ajudam a compor o ambiente. 

A música tem presença importante na experiência, em sintonia com a trajetória de Diogo. Dessa forma, o restaurante reúne diferentes referências culturais para apresentar a região aos clientes e criar uma identidade que não depende apenas das receitas. 

 

Comida, ambiente e programação ampliam a experiência 

Nos dois estabelecimentos, a escolha dos pratos também funciona como uma maneira de incentivar a descoberta de ingredientes menos conhecidos por parte do público. 

No Namazônia, essa proposta aparece inclusive nas bebidas. Segundo Amaral, o restaurante não oferece suco de laranja porque busca estimular a experimentação de frutas regionais, como bacuri, cupuaçu e taperebá. 

No Canto de Mainha, a programação complementa as opções gastronômicas. Além do cardápio à la carte, o estabelecimento oferece rodízio de petiscos às quintas-feiras e feijoada aos sábados. A combinação entre comida, música e ambiente amplia as possibilidades de consumo e reforça as referências culturais da casa. 

As experiências dos dois restaurantes mostram que trabalhar com culinárias regionais fora de seus territórios de origem pode envolver estratégias distintas.  Para a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), iniciativas como essas ilustram como a identidade gastronômica de um estabelecimento pode se expressar na seleção dos pratos, na escolha dos ingredientes e na maneira como a história de cada região é apresentada ao consumidor. 

Para quem vive longe de sua terra natal, uma refeição pode despertar lembranças e vínculos afetivos. Para quem chega por curiosidade, pode representar o primeiro contato com sabores e tradições de outra parte do país. Em ambos os casos, a gastronomia transforma o restaurante em um espaço de encontro entre diferentes culturas brasileiras. 

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