Muito além da dívida: bets deixam marcas na saúde e SUS reforça cuidado às famílias

  Com alta de 140% nos atendimentos relacionados às apostas, Governo Lula amplia acolhimento a pessoas afetadas pelo vício mesmo após a proibição dos jogos

O estrago provocado pelas bets não termina quando o dinheiro acaba nem quando o aplicativo sai do ar. Ansiedade, depressão, perda de controle e conflitos familiares estão entre os efeitos que levaram o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a tratar as apostas online como um grave problema de saúde pública. Nesta sexta-feira, 25, durante o anúncio da medida provisória que proíbe as bets no Brasil, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, apresentou dados sobre o adoecimento associado aos jogos e reforçou que o Sistema Único de Saúde (SUS) continuará acolhendo apostadores e familiares.

Entre 2018 e 2025, os atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas cresceram cerca de 140% na rede pública. Segundo o ministro, a proibição precisa ser acompanhada da continuidade do cuidado, porque os danos à saúde e às relações familiares permanecem mesmo após a interrupção das apostas.

“Os efeitos causados por ele não acabam quando se desliga o aplicativo, quando desliga o celular. A depressão, a ansiedade, a violência, a falta de convívio com a família, os impactos na saúde relacionados aos impactos financeiros continuam”, afirmou Padilha.

O ministro destacou que os números ajudam a dimensionar o problema, mas não traduzem todo o sofrimento relatado por pacientes, familiares e profissionais de saúde. “Esse é um mal que as pessoas não só perdem o dinheiro, elas perdem o controle sobre a sua própria vida, perdem o controle sobre o seu próprio tempo”, declarou.

Um problema que ultrapassa a perda financeira

Dados apresentados pelo governo apontam que o transtorno do jogo está associado a alterações no sono e no humor, isolamento, prejuízos às relações pessoais e profissionais e maior uso de álcool e outras drogas. Segundo informações da Organização Mundial da Saúde (OMS) citadas no anúncio, a mortalidade por suicídio é 15 vezes maior entre pessoas com transtorno do jogo. A dificuldade financeira aparece como o principal fator associado ao suicídio entre apostadores.

A vulnerabilidade econômica também amplia a exposição ao adoecimento. Conforme os dados divulgados, o risco de desenvolver dependência é três vezes maior entre pessoas socioeconomicamente vulneráveis. Entre jogadores online, o aumento do risco é de 150%.

O impacto alcança toda a sociedade. Estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), apresentado por Padilha, estima em R$ 38,8 bilhões anuais o custo social associado aos jogos. Desse total, R$ 30,6 bilhões, quase 80%, estão ligados à saúde, incluindo mortes por suicídio, perda de qualidade de vida associada à depressão e tratamentos médicos. A estimativa vai além das despesas diretas com atendimento.

Mulheres e crianças também sofrem os efeitos

Embora os homens sejam maioria entre os apostadores, as mulheres representam mais de 60% das pessoas que buscaram o teleatendimento oferecido pelo Ministério da Saúde, segundo Padilha. O serviço acolhe tanto quem enfrenta a compulsão quanto familiares afetados por ela.

“As mulheres são afetadas se elas apostam ou se elas não apostam”, ressaltou. O ministro explicou que o comprometimento do orçamento, os conflitos e a sobrecarga familiar atingem também quem nunca abriu uma plataforma de apostas.

A vergonha é outra barreira para o cuidado. Pesquisa citada pelo governo aponta que 65% das mulheres que apostam ou já apostaram não procuraram ajuda por esse motivo. Entre as que não apostam, 12% relatam impactos decorrentes do jogo de familiares.

A exposição também começa cedo. De acordo com o release divulgado pelo governo, uma pesquisa em escolas públicas e privadas mostrou que 20,4% dos estudantes já haviam apostado online. O contato pode começar aos 11 anos e, entre os meninos do terceiro ano do ensino médio, a proporção chega a 49,7%.

SUS mantém acolhimento após a proibição

Para ampliar o acesso ao cuidado, o Ministério da Saúde oferece um autoteste pelo Meu SUS Digital e teleatendimento com profissionais de saúde mental. Segundo Padilha, 170 mil pessoas acessaram a ferramenta de avaliação, que ajuda a identificar sinais de compulsão e a buscar atendimento.

A assistência prevê inicialmente dez consultas individuais, com possibilidade de continuidade conforme o plano de cuidado, participação em grupos terapêuticos e articulação com a rede local de saúde. Desde agosto, informou o ministro, a oferta é de 100 mil atendimentos por mês.

Padilha também relatou que mais de 1,3 milhão de brasileiros solicitaram a autoexclusão das plataformas de apostas. Entre os motivos declarados, 35% apontaram a perda de controle, evidenciando a necessidade de acolhimento.

O ministro pediu que familiares, amigos e colegas ajudem quem enfrenta dificuldades a encontrar atendimento. “Eu quero pedir muito às pessoas que nos acompanham que possam oferecer a um familiar, a um amigo, a um colega de trabalho, a um irmão da igreja, essa porta que nós criamos do teleatendimento, da busca do acolhimento para sair desse vício das apostas”, afirmou.

Mesmo com a proibição, o Ministério da Saúde manterá a busca ativa para oferecer assistência às pessoas afetadas. Segundo Padilha, afastar as plataformas e garantir tratamento são partes de um mesmo esforço para proteger a saúde e reconstruir a vida das famílias.

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