Amnésia no MDB deixa o partido sem memória, sem rumo e com o passado cobrando a conta do presente

Amnésia é a perda total ou parcial da capacidade de recordar experiências passadas. Na convenção do MDB em Brasília, neste sábado, 1º de agosto, a doença pareceu atingir o partido inteiro. Quem conheceu o MDB de Ulysses Guimarães, Dante de Oliveira e tantos outros que fizeram da legenda um instrumento da construção democrática brasileira talvez tivesse dificuldade para reconhecer o partido de hoje. O MDB de Joaquim Roriz, que durante anos teve força própria no Distrito Federal, também parece pertencer a outro tempo.
Hoje, a legenda tenta vender unidade enquanto convive com o desgaste provocado pelas próprias gestões, pela perda de identidade política e pela dificuldade de explicar o presente sem recorrer às glórias do passado. A convenção serviu mais para esconder os problemas do que para resolvê-los. O ex-governador Ibaneis Rocha ficou praticamente fora da fotografia política do encontro. E não é difícil entender por quê.
Ibaneis carrega sobre os ombros um episódio que marcou profundamente sua trajetória e deixou cicatriz na imagem do MDB: o 8 de janeiro de 2023. Naquele dia, Brasília foi invadida e depredada, em uma tentativa de golpe contra a democracia, e o governador acabou afastado do cargo por decisão do ministro Alexandre de Moraes, posteriormente referendada pelo próprio STF.
O desgaste ganhou nova dimensão com o caso BRB-Master, ocorrido durante a gestão de Ibaneis. O governador passou a ser citado no centro da crise que atingiu o banco público do Distrito Federal. Daniel Vorcaro, dono do Master, afirmou à Polícia Federal que se encontrou com Ibaneis em algumas oportunidades para tratar da negociação envolvendo as duas instituições. Ibaneis nega ter tratado diretamente com Vorcaro da operação e afirma que as negociações eram conduzidas pelo então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
A conta política ficou pesada. O BRB acumulou prejuízos bilionários relacionados às operações com o Master, enquanto o governo do Distrito Federal precisou discutir medidas de capitalização, incluindo um empréstimo de até R$ 6,6 bilhões e a utilização de imóveis públicos. No Senado, o rombo do BRB foi estimado em mais de R$ 8 bilhões. O caso acrescentou uma nova cicatriz à gestão de Ibaneis e ao próprio MDB.
Há, porém, uma ressalva que a política costuma esquecer quando lhe convém. Em março de 2025, o STF arquivou o inquérito contra Ibaneis depois de a Procuradoria-Geral da República concluir que não havia elementos para justificar o prosseguimento da investigação. O episódio, portanto, permanece como marca política e institucional da gestão, mas não resultou em responsabilização penal de Ibaneis naquele inquérito.
O problema do MDB, entretanto, é maior do que Ibaneis. O partido que um dia se apresentava como protagonista da democracia hoje precisa transformar convenção partidária em demonstração de força. A fotografia da unidade parece mais importante que a unidade propriamente dita. E velhos nomes e velhas histórias continuam sendo usados como certificado de autenticidade para uma legenda que parece ter perdido a própria identidade.
Foi nesse cenário que apareceu Rafael Prudente. A candidatura que começou como saruê terminou como camundongo. Quem poderia ocupar o centro do palco acabou reduzido a coadjuvante da governadora Celina Leão, candidata à reeleição. A independência política foi substituída pela conveniência eleitoral, e o MDB, que já teve cacife para ditar o rumo da política brasiliense, agora parece satisfeito em acompanhar quem estiver melhor posicionado na fotografia.
Celina falou em crescimento. “O MDB tem todas as condições de crescer. Hoje ocupa cinco cadeiras na Câmara Legislativa e pode chegar a seis.” Pode. Mas partido forte não se mede apenas pelo número de cadeiras. Mede-se pela capacidade de formular ideias, disputar poder e apresentar nomes que não precisem pedir licença para existir politicamente.
E, a cada vez que Celina enaltecia o MDB, havia uma segunda mensagem. O elogio à legenda também parecia mirar Wellington Luiz, presidente do partido em Brasília, hoje politicamente enterrado numa areia movediça da qual precisa ser resgatado. O presidente precisa tentar a reeleição para a Câmara Legislativa carregando o desgaste acumulado pelo partido e pela gestão que o MDB ajudou a sustentar. A tarefa é difícil.
Celina não estava apenas falando do MDB. Estava tentando recuperar o partido e, com ele, seu presidente no Distrito Federal. Se o MDB estiver desgastado, Wellington Luiz estará junto. Se a legenda perder espaço, o presidente também perderá. E, se a bancada diminuir, sua posição política ficará ainda mais vulnerável.
Celina também fez questão de agradecer ao MDB e a Ibaneis Rocha. “Foi esse partido que governou esta cidade por oito anos, encontrou Brasília em uma situação muito difícil e promoveu uma profunda transformação.” É a memória seletiva da política. Quando interessa, lembram-se dos oito anos. Quando incomoda, esquece-se o que aconteceu no caminho.
“Não podemos deixar de reconhecer o trabalho realizado pelo governador Ibaneis Rocha”, afirmou Celina. Não se pode mesmo. Mas também não se pode apagar o 8 de janeiro, o afastamento determinado pelo Supremo e o desgaste político produzido pelo episódio, muito menos o caso BRB-Master e seus desdobramentos.
A convenção tentou vender a ideia de que tudo está resolvido. “Sem o apoio do MDB na Câmara Legislativa, muitas entregas não teriam sido possíveis. Esse partido foi fundamental para dar sustentação política ao governo.” É justamente aí que mora a contradição. O MDB tornou-se tão dependente da máquina que passou a confundir sustentação política com identidade partidária. O partido sustenta o governo, o governo sustenta o partido e todos sustentam a ideia de que está tudo bem. Só falta combinar com a realidade.
“Intentaram nos dividir, mas hoje chegamos todos unidos.” Unidos em torno de quê? A convenção não respondeu. Projeto para Brasília? Candidaturas? Sobrevivência eleitoral? Continuidade do grupo político que administra o Distrito Federal? Ou simplesmente a necessidade de chegar inteiro à eleição?
O MDB fala em parceria para 2027, mas ainda precisa explicar o que pretende entregar até lá. A história não vive de fotografias de convenção. E partido que depende da memória para justificar o presente corre o risco de descobrir que o eleitor também sofre de amnésia, só que, no dia da eleição, costuma lembrar muito bem de quem governou, de quem apoiou e de quem estava ao lado de quem.
O MDB de Ulysses Guimarães virou história. O MDB de Roriz virou lembrança. O MDB de hoje tenta sobreviver à própria falta de memória. E, em Brasília, a conta do presente continua chegando, até o dia em que o partido consiga resgatar sua identidade.
