Neurocirurgião alerta para impactos do álcool no cérebro


 

Consumo excessivo pode favorecer alterações cognitivas, atrofia cerebral, distúrbios do sono e aumentar o risco de AVC, segundo especialista


O impacto do álcool sobre a saúde cerebral vai muito além da ressaca e da sensação de cansaço no dia seguinte. O consumo excessivo e frequente de bebidas alcoólicas está associado a alterações cognitivas, perda de volume cerebral, maior risco de demência e até ao desenvolvimento de acidente vascular cerebral (AVC). Embora muitas pessoas se perguntem qual bebida faz mais mal ao cérebro, especialistas afirmam que o principal fator de risco é a quantidade de álcool ingerida e o padrão de consumo.


Segundo o neurocirurgião Victor Hugo Espíndola, o componente responsável pelos danos neurológicos é o etanol, presente em todas as bebidas alcoólicas. “Do ponto de vista neurológico, o principal fator de dano cerebral não é exatamente o tipo da bebida, mas sim a quantidade de álcool consumida, a frequência do consumo e o padrão de ingestão, especialmente episódios de consumo excessivo”, explica.


O especialista ressalta que bebidas destiladas, como vodca, uísque, tequila e cachaça, costumam representar maior risco em situações de consumo agudo por apresentarem concentrações alcoólicas mais elevadas. “Esses picos aumentam o risco de alteração de memória e julgamento, déficit de coordenação motora, acidentes e traumatismos cranianos, crises convulsivas, AVC hemorrágico, arritmias cardíacas associadas ao AVC e intoxicação alcoólica grave”, afirma.


Apesar de o vinho tinto frequentemente ser associado a possíveis benefícios cardiovasculares devido à presença de compostos antioxidantes, Victor Hugo Espíndola alerta que isso não significa proteção para o cérebro. “O vinho tinto frequentemente é citado por possíveis efeitos cardiovasculares relacionados a compostos antioxidantes, mas isso não significa que seja ‘protetor’ para o cérebro quando consumido em excesso. O álcool continua sendo neurotóxico”, destaca.


O médico explica que o álcool atua diretamente no sistema nervoso central, alterando a comunicação entre os neurônios e interferindo em neurotransmissores importantes, como GABA, glutamato e dopamina. Entre os efeitos imediatos estão lentificação do raciocínio, redução da atenção, prejuízo da memória, diminuição dos reflexos e alterações de equilíbrio e coordenação.


Com o consumo repetitivo ou excessivo, os danos podem se tornar mais profundos. “Podem surgir consequências como atrofia cerebral, piora cognitiva, alterações de humor e comportamento, distúrbios do sono, neuropatia periférica e aumento do risco de AVC isquêmico e hemorrágico”, afirma o especialista. Além disso, o álcool favorece hipertensão arterial, inflamação vascular, arritmias cardíacas e alterações metabólicas que elevam o risco de doenças cerebrovasculares.


Outro grupo que merece atenção especial é o dos adolescentes e adultos jovens. De acordo com o neurocirurgião, o cérebro ainda está em desenvolvimento nessa fase da vida, tornando-se mais vulnerável aos efeitos do álcool. “O consumo precoce pode impactar áreas relacionadas à memória, tomada de decisão e controle de impulsos”, alerta.


Apesar dos danos provocados pelo álcool, o cérebro possui capacidade de recuperação parcial, sobretudo quando o consumo excessivo é interrompido precocemente. “Em casos leves e ocasionais, muitos efeitos agudos desaparecem em horas ou dias, conforme o organismo metaboliza o álcool”, explica.


Já entre consumidores frequentes, a recuperação pode ser mais lenta. “O sono e a clareza mental podem melhorar em poucas semanas, funções cognitivas podem apresentar recuperação gradual ao longo de meses e parte da redução do volume cerebral pode melhorar após abstinência prolongada”, afirma.


No entanto, alguns prejuízos podem ser permanentes em casos de consumo crônico intenso, principalmente quando há deficiência nutricional, lesão hepática avançada, múltiplos episódios de intoxicação ou histórico de AVC. “Do ponto de vista neurológico, o mais importante é evitar padrões de consumo excessivo e reconhecer que não existe uma quantidade completamente isenta de risco para o cérebro”, conclui.

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