Opinião: O que aprendemos com Tóquio 2021: lições olímpicas para levar à escola

Juliana Landolfi Maia*


Em ano olímpico, trabalhar os esportes como conteúdos torna-se um elemento de motivação a mais para os nossos alunos, e 2021 veio cheio de novidades e bons contextos para serem utilizados pelos professores. Mas essa discussão começou muito antes dessa olimpíada, pois em um cenário de pandemia, foi preciso que atletas do mundo inteiro adequassem treinamentos e rotinas para minimizar o impacto que as restrições sanitárias impuseram a todos. No Brasil, várias ações foram necessárias e o Comitê Olímpico Brasileiro ajudou orientando nossos atletas.

Acompanhando todas as modificações impostas às escolas e aos professores, a disciplina de Educação Física precisou de uma nova configuração, e muitas foram as experiências trocadas ao longo dos últimos 18 meses, como aulas remotas e práticas com distanciamento social, exigindo muita criatividade para possibilitar as vivências esportivas, e dentro desse contexto, podemos trazer para a sala de aula algumas das lições aprendidas com a Olimpíada de Tóquio 2021.

Uma das temáticas abordadas nas aulas de Educação Física no Ensino Médio está relacionada às compreensões dos  estereótipos  de gênero por meio de construções sociais e suas possibilidades de superação nas práticas corporais. Essa olimpíada já trouxe vários fatos interessantes que podem nos ajudar a embasar essa discussão. Temos, por exemplo, as ginastas alemãs que, em protesto contra a sexualização do esporte, se apresentaram com uniformes longos, deixando o tradicional collant de fora. Nessa mesma perspectiva, atletas norueguesas de handebol de praia se recusaram a vestir os biquínis típicos desse esporte, chegando, inclusive, a serem multadas, e, por esse motivo, mobilizaram personalidades do mundo todo em apoio à causa. Atrelada a essa mudança de comportamento, temos uma competição que trouxe possibilidades de equipes mistas no tênis de campo, natação e em outras modalidades.

Na outra ponta, está a atleta brasileira Rayssa Leal, primeira medalhista olímpica na modalidade skate com apenas 13 anos de idade. Em uma de suas falas após o pódio ela afirmou que “skate não é só para meninos”. Vale lembrar que a modalidade skate, pela primeira vez numa olimpíada, é uma proposta da unidade temática “Práticas corporais de aventura”,  que consta na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), assim como o surfe, modalidade na qual o Brasil também garantiu premiação.

Destaque também para a atleta Rebecca Andrade, que teve uma participação histórica na ginástica artística, com medalhas na modalidade salto e individual. Além de ser a primeira atleta brasileira a conquistar o pódio duas vezes na mesma competição, ainda se consagra como a primeira atleta negra a realizar esse feito, destacando a importância da representatividade no esporte e nessa modalidade.

No Ensino Médio, também abordamos comportamentos competitivos e cooperativos nas práticas corporais com discussões sobre a influência desses fatores não só nos esportes, mas em diversas ações. A situação vivida pela atleta norte-americana Simone Biles, que optou por não participar da final olímpica, alegando a necessidade de cuidar da sua saúde mental, levantou a discussão sobre a importância dessa temática. A atleta, maior medalhista olímpica da ginástica, apresentou diversos comportamentos cooperativos após desistir de sua participação, influenciando e motivando outros competidores a permanecerem nas disputas, inclusive, torcendo por outros países.

Podemos citar também os avanços tecnológicos nas pistas de atletismo como plataformas de saída, recursos de análise de vídeo, entre tantos outros aspectos que poderiam ser utilizados como pontos de partida para propostas interdisciplinares com outros componentes curriculares.

Enfim, muitas temáticas e acontecimentos interessantes e significativos de serem abordados, seja revisitando gravações da olimpíada ou proporcionando debates em sala de aula. O importante é aproveitar esse momento histórico para trazer a realidade para a sala de aula, quadra ou campo e aproveitar o protagonismo dos alunos para embasar ainda mais temáticas tão relevantes.

 

*Juliana Landolfi Maia é doutoranda em Educação Física pela UNICAMP-SP e faz parte do time de formação de professores do Sistema Positivo de Ensino.

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