Opinião: Cancelamento de vestibulares: entre proteger-se do vírus ou da depressão



*Mariana Marzola

O cancelamento das provas para a Polícia Civil, às vésperas do concurso que reuniu mais de 105 mil pessoas em Curitiba, já havia alertado os estudantes para o que viria pela frente: o novo adiamento das provas da UFPR. O anúncio ampliou ainda mais a apreensão dos 30,7 mil vestibulandos inscritos. Na mesma semana a Unesp (Universidade Estadual Paulista) também adiou a segunda fase do concurso. Esses são apenas alguns dos vários adiamentos de vestibulares que, desde 2020, vêm postergando e alterando os planos de milhares de jovens.

Naturalmente, a justificativa sobre a falta de estrutura para a realização das provas com segurança sanitária durante a pandemia do novo coronavírus é compreensível. No entanto, depois de mais de onze meses de isolamento social e extremo abalo emocional dos estudantes, esse adiamento, imprevisto e sem antecedência, gerou pânico e estresse. É possível perceber uma despreocupação com o estado psicológico de milhares de jovens que, há anos, preparam-se para esse momento.

Inúmeras pesquisas apontam para os altos índices de depressão e ansiedade entre os pré-vestibulandos. O medo do futuro, a dificuldade em tomar uma decisão para o curso, a apreensão diante da concorrência, o receio quanto ao sentimento de inferioridade... são inúmeras inseguranças que pairam sobre os adolescentes nessa fase de decisões. Algumas pesquisas apontam, inclusive, que mais de 47% dos jovens do terceiro ano do Ensino Médio e cursos pré-vestibulares apresentam sintomas de transtorno depressivo. Não à toa o consumo de medicamentos antidepressivos tem aumentado entre os jovens.

Ainda não sabemos como a ansiedade nos adolescentes irá repercutir durante a vida adulta.  Por isso, torna-se triste e muito preocupante perceber o quanto a juventude tem sofrido diante de tantas intempéries. Afinal, justamente os estudantes são a próxima geração de trabalhadores, pensadores, artistas, empreendedores (etc.) responsáveis por continuar a história da humanidade.

Além da natural carga emocional pela qual a juventude vem passando, há alguns anos, 2020 apresentou ainda mais dificuldades. Com os casos da doença aumentando, o país em luto, a economia frágil e o isolamento social, todos tivemos ainda imensuráveis abalos psicológicos. Dentre os grupos mais afetados emocionalmente estão justamente os estudantes que, desde o primeiro ano do Ensino Médio, vêm buscando tomar suas grandes decisões, para exatamente no momento final de sua preparação, depararem-se com tamanha instabilidade.

É injusto e trivial sentenciar as decisões de universidades quanto ao adiamento de provas, devido à atual instabilidade social. No entanto, o ano de 2021 busca retomar as aulas na medida do possível, mesmo diante de uma nova variante ainda mais contagiosa. As escolas têm se adaptado às medidas de segurança, os professores adaptam-se a novos modelos de ensino, os pais e alunos também buscam alocar-se dentro de todas as medidas. Isso porque sabemos: o isolamento social ampliou consideravelmente os índices de transtornos emocionais, que já eram altos.

Cancelar, adiar, reiterar provas de vestibulares sem a devida antecedência pode apresentar uma falta de empatia com a população que, devido a inúmeros acontecimentos, tem andado muito abalada. Assim, é interessante indagar: precisamos nos cuidar e prevenir, mas qual o limite para desconsiderarmos o lado emocional da juventude?

*Mariana Marzola, professora de Filosofia e Sociologia no Colégio Positivo e assessora de Filosofia e Sociologia no CIPP - Centro de Inovação Pedagógica, Pesquisa e Desenvolvimento das unidades do Grupo Positivo.


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