Água doce e o desafio de preservá-la

A água é uma substância vital para humanos, animais e plantas. Sem água não há produção e nem vida. Como resultado do uso excessivo e indiscriminado, associado com a degradação ambiental em expansão, a água doce está cada vez mais ameaçada de indisponibilidade pelo mundo. Embora aproximadamente 70% da superfície do Planeta esteja coberta com água

Foto: Renato Lima.

A água é uma substância vital para humanos, animais e plantas. Sem água não há produção e nem vida. Como resultado do uso excessivo e indiscriminado, associado com a degradação ambiental em expansão, a água doce está cada vez mais ameaçada de indisponibilidade pelo mundo. Embora aproximadamente 70% da superfície do Planeta esteja coberta com água, somente cerca de 3% dessa água é doce e adequada para irrigar plantas e matar a sede de humanos e de animais. O percentual restante é água do mar e salgada.

Foto: Paulo Lanzetta

O Brasil é privilegiado quanto à disponibilidade deste recurso. Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), 12% do total da água doce do Planeta está no Brasil, razão pela qual a falta de água pareceria ser um dos últimos problemas com os quais o Brasil deveria preocupar-se.

Mesmo com menor intensidade do que na maioria dos demais países, o Brasil também enfrenta problemas de desabastecimento de água doce para boa parcela da sua população, seja porque o recurso está mal distribuído no seu território, ou porque é gerido de maneira irresponsável, gerando desperdícios e degradação dos mananciais, em especial aqueles margeados pelas regiões intensamente urbanizadas, a exemplo de algumas metrópoles.
Assim como as chuvas, a distribuição das pessoas no Planeta, também é desuniforme, havendo regiões onde chove muito e vive pouca gente e outras que concentram um grande número de pessoas e chove pouco. A Amazônia (muita chuva) e o Nordeste (pouca chuva) são exemplos dessa realidade no Brasil.

Mesmo regiões privilegiadas pelo grande volume de chuvas podem, eventualmente, sofrer de déficit hídrico dada a elevada concentração de pessoas nas cidades. Segundo a ONU, até 2050, 70% dos habitantes do Planeta estarão concentrados em grandes metrópoles, onde passarão a consumir 70% mais água do que consumiam quando residiam no campo (FAO).

Ainda, segundo a ONU, 1 bilhão de pessoas não tem acesso à quantidade mínima de 20 litros de água potável por dia, 1,2 bilhões não têm água tratada, 1,8 bilhões não dispõem de tratamento básico adequado e 10 milhões morrem todo ano em consequência de doenças derivadas do consumo de água insalubre.

O ideal seria, segundo a ONU, que cada cidadão pudesse dispor, não de 20 litros diários de água potável – que é o mínimo necessário – mas de 110 litros, para que possam satisfazer plenamente as suas necessidades básicas. Infelizmente, o acesso ao montante ideal de água é muito desigual. Um cidadão americano, por exemplo, desfruta, em média, de 215 litros diários, contra 159 litros de um brasileiro, 15 litros de um haitiano e meros 4.0 litros de um cidadão do Mali (ONU 2015).

O aumento da demanda por água não tem origem apenas no aumento da população, mas, principalmente, pelo aumento da renda das pessoas. Com mais dinheiro disponível, eleva-se a busca por alimentos melhores, particularmente de proteínas animais, consequentemente, demandando mais produção para supri-las. Assim, eleva-se o consumo de água pois são necessários 10.000 litros para produzir 1.0 kg de carne suína e 17.000 litros para produzir 1.0 kg de carne bovina (Wagner Cunha, W-Energy). Importante salientar que a água utilizada numa temporada na produção de grãos ou carnes, não desaparece do sistema. Retorna na safra seguinte repetindo o ciclo.
Para o atendimento da demanda por mais alimentos, a sociedade depende da incorporação de novas áreas de cultivo ou de maior produtividade dos campos de produção já existentes. Contudo, atender mais demandas de um setor que já consome 70% da água doce do Planeta, tem limites.

Segundo o World Resources Institute, a demanda global de água doce cresceu 2,5 vezes no período 1961 a 2014, principalmente pelo consumo gerado pela agricultura irrigada. No Brasil, segundo a ANA, o consumo de água doce cresceu 80% no correr das duas últimas décadas, e se estima que crescerá outros 40% até 2030 em razão, principalmente, do acelerado aumento das lavouras irrigadas.

Diante do risco provável de que faltará água doce para o atendimento das necessidades básicas futuras da população brasileira, mesmo considerando a abundância de água doce existente no país, ela não pode ser desperdiçada. Segundo o IBGE, a agropecuária é o setor menos eficiente no uso da água. Segundo a ANA, o Brasil desperdiça 40% da água utilizada na irrigação, por causa de vazamentos nas tubulações e pela utilização de sistemas de irrigação pouco eficientes. É o mesmo porcentual que, se estima, crescerá a demanda de água para irrigação nos próximos 10 anos.

Um indicativo de que a humanidade está preocupada com a possibilidade de sofrer desabastecimento futuro de água doce, foi a participação de 100 mil pessoas no Fórum Mundial da Água realizado em Brasília, em 2018. Foi a maior edição da história, do evento.

A degradação ambiental é uma séria ameaça ao suprimento adequado de água doce às populações do Planeta. Segundo o World Resources Institute, 3,5 bilhões de pessoas sofrerão por escassez de água até 2040, devido à degradação do ambiente. Mesmo dispondo de água doce em abundância, ninguém tem o direito de desperdiça-la.

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